Primeiras impressões - Ford GT é carro de corrida para as ruas

Primeiras impressões – Ford GT é carro de corrida para as ruas

Ford GT 2017

Tooele, Utah – Cercado por duas cordilheiras lindamente cobertas de neve e uma planície árida do deserto, uma pista de corrida tecnicamente exigente é polvilhada por meia dúzia de brilhantes exemplares de um dos supercarros mais aguardados dos últimos anos. Só que isso não é meramente um supercarro. É o Ford GT. Como a terceira geração de uma linhagem que pinga sentimentalismo e transborda história, muito poucos carros inspiram este tipo de respeito apenas por seu nome, como acontece com o GT. É uma máquina sedutora e, por um momento, me sinto como um adolescente encantado por formas femininas pela primeira vez. Mas há trabalho a fazer neste semiparaíso.

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Com 250 carros programados para ser produzidos anualmente pelos próximos quatro anos, apenas uns poucos privilegiados – selecionados pela Ford – terão o privilégio de pagar mais de US$ 450 mil por um deles. E apenas um: a Ford não quer nenhum cliente com mais de uma unidade de sua obra-prima. Margens de lucro dificilmente são algo a considerar neste caso. Para ser bem sucedido, as linhas que o GT deve mover são a sistólica e a diastólica em vez da financeira. Isso significa que ele tem que permanecer fiel ao original sem ser uma reinterpretação banal. E que deve ser devastadoramente rápido, sob pena de nenhuma de suas outras qualidades fazer nenhuma diferença.

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Por mais atraente que seja o Ford GT, a razão de ser do carro está em linha com a de seu avô GT40: vencer as 24 Horas de Le Mans. Ponto final. Para esse fim, o carro de corrida (que cumpriu o propósito de sua vida em Le Mans em 2016) e o de rua são incrivelmente semelhantes. Ao contrário de praticamente todos os outros veículos de produção de hoje, este foi concebido literalmente desde o primeiro dia para ser, em primeiro lugar, um carro de corrida.

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Os críticos de sempre desmerecerão o GT por seu V6 em vez do tradicional motor V8, mas não é disso que este carro trata. Cada milímetro de sua bela carroçaria é altamente funcional, de acordo com o melhor da tradição dos bólidos de corrida. Os painéis são tão firmemente envolvidos em torno dos componentes mecânicos que, sem o EcoBoost V6 biturbo 3.5, a forma do GT seria radicalmente diferente. Não haveria aquelas entradas de ar laterais que abrigam os intercoolers nem os reforços aéreos que abrigam seus dutos. Como são usados também para a rigidez estrutural e para direcionar o fluxo do ar para a asa traseira, eles são muito mais do que apenas um elemento distintivo de estilo do carro. Um V8 teria arruinado este Ford GT, por mais que seu som fosse glorioso.

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Entrar no GT é mais fácil do que na maioria dos carros de corrida e mais difícil do que em um supercarro típico. Ele traz uma gaiola de aço, aprovada oficialmente pela FIA para corridas, e você nunca a perceberia só de olhar ou mesmo de se sentar no carro. Isso simplesmente não é possível na maioria dos veículos. No caminho para fora do GT, o batente de porta extralargo fornece uma área de descanso adequada a quem não tem as habilidades evasivas em dia. Por razões de natureza legal e de segurança, os assentos são fixos para evitar que pintores de rodapé fiquem muito à frente, o que os faria se sentar muito perto do extremo dessa gaiola. Em vez disso, há uma correia de nylon localizada no nível do joelho: puxe-a e todo o painel de pedais – incluindo o apoio para o pé – deslizará em direção ao motorista.

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Pressionar o brilhante botão de partida vermelho desencadeia uma sinfonia que serve como lembrete de que este carro foi construído não apenas para prestar homenagem à sua herança, mas para continuar a missão de seus antepassados. Uma vez que ele grita para a vida – e é definitivamente um grito – os 656 cv e 76,1 kgfm do EcoBoost V6 tornam o carro de produção mais forte do que qualquer um dos integrantes do quarteto da Chip Ganassi Racing. Tanto nos EUA quanto na Europa, graças a regulamentos de corrida.

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Giro um seletor no volante de N (normal), passando por S (esporte), para T, de Track, o modo de corrida. O carro pede confirmação de que eu realmente quero isso – ãh, sim! – antes que um atuador hidráulico comprima as molas helicoidais montadas internamente até que elas não se movam mais. O chassi desce 50 milímetros em menos de um segundo. O resultado é que a suspensão é agora “rebaixada” pela resistência de uma única barra de torção. Trata-se de um truque muito legal, possível apenas pelo ajuste quase infinito dos amortecedores de última geração DSSV (isto é, Dynamic Suspension Spool Valve, ou suspensão dinâmica por distribuidor). Ela é tão notável por sua simplicidade elegante quanto por sua funcionalidade revolucionária.

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O Ford GT não é apenas intimamente ligado aos carros de corrida GTE e GTLM. Ele está para eles como Clark Kent para o Superhomem. Colocado em uma pista de corrida, ele é incrivelmente rápido. Precisei de uma volta e meia antes de poder pisar fundo no acelerador nas curtas retas. Aperte o pedal do freio e a asa traseira ativa do GT se abre para criar um freio aerodinâmico vertical. Pise suavemente no acelerador novamente e ela assume uma configuração forte de sustentação negativa que vê até um Gurney flap surgir por um minuto em sua extremidade final.

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Ao fazer isso, duas aletas na frente do carro se fecham, forçando o ar a passar pelas icônicas entradas de ar que abrigam os radiadores. Ou por debaixo do carro, onde o assoalho é moldado para criar um vácuo sob o eixo dianteiro antes de dirigir o ar para fora por meio de um grande respiradouro atrás das rodas dianteiras.

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Saindo de um grampo, mantenho o pé direito fincado firmemente embaixo. Impulsionado pela raiva, o gemido do EcoBoost V6 é decididamente mais Boost do que Eco. Fico em êxtase por apenas um segundo antes de ter de engatar a 4ª marcha, o que acontece instantaneamente. O motor repete sua escalada gloriosa pela escala do conta-giros, mas, quando engato a 5ª, isso nem me passa pela cabeça. O foco está em encontrar o ponto de frenagem que se aproxima rapidamente. Enquanto piso no pedal esquerdo, a asa traseira faz sua mágica e a transmissão reduz as marchas tão rapidamente, acionando o acelerador a cada vez, que ele realmente se parece mais com um monoposto do que com um esportivo normal.

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A direção hidráulica “raiz” é uma comunicadora perfeitamente direta e capaz. No meio das curvas, o carro é sublime em seu equilíbrio, facilmente ajustável com o acelerador ou com o freio. É um carro tão fácil de conduzir que ele pode fazer um piloto médio se sentir como o próprio Ayrton Senna, mas também é perfeito para um ninja do volante procurar os limites (muito, muito) altos de aderência. O GT não quebra as leis da física; ele simplesmente as usa como seu playground pessoal.

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Conduzido com restrição em estradas públicas, o carro é quase um enigma. As entradas de ar laterais para os intercoolers, diante das rodas traseiras, se insinuam orgulhosamente nos espelhos retrovisores, dando a impressão de que o carro é muito mais largo do que realmente é. Com a asa acionada, grande parte da visão pela vigia é obstruída, mas a visibilidade para trás não se torna um problema, já que você pode enxergar pelos grandes canais aerodinâmicos entre os intercoolers e o compacto V6.

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Entrando em uma estradinha sinuosa de subida de serra, estou imediatamente ciente de que há cascalho espalhado pelo pavimento. O ruído de seixos ricocheteando sob a carroceria não é absorvido por nenhum tipo de tratamento acústico e reverbera pelo habitáculo. Tenho certeza de que é exatamente o tipo de ruído de que alguns vão reclamar, mas é música em um puro-sangue. Isolamento contra tais sons iria adicionar peso aos 1.385 kg do carro e eliminar a vantagem de sua estrutura de fibra de carbono. Ainda assim, em um dia de 9ºC, a cabine é um forno. Culpa não das quatro saídas de ar montadas na própria porta do carro, mas do calor que o motor central emite e que se infiltra completamente no interior do GT. É um lembrete sutil de que, para tudo o que este GT faz tão bem, ser um gran turismo não está em sua descrição de funções.

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Descendo a mesma estradinha, coloquei a transmissão em modo automático, só para ver como é. A novidade desaparece depois de apenas duas curvas e volto a controlar as trocas sozinho. Mais tarde, um dos engenheiros da Ford não fica surpreso e me explica que eles não gastaram muito esforço calibrando o computador para trocas automáticas. Muito poucos dos compradores deverão usar o GT neste modo.

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Uma dúzia de botões, ao lado de duas chaves, dois seletores, duas borboletas e um conjunto de luzes de LED, adornam o volante. Estou mais interessado no seletor à esquerda, que controla os modos de direção. No modo N (normal), a direção afiada é um pouco embotada para dirigir pela cidade, mas, em uma estrada pública, S (esporte) é o modo ideal.

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Passe do limite de 120 km/h e a asa traseira sobe, transformando-se numa letra escarlate metafórica que anuncia que você acabou de ultrapassar o limite de velocidade (uma breve mudança para o modo normal é suficiente para retraí-la). O sistema antilag avançado do EcoBoost mantém os turbos “cheios” e prontos, resultando não apenas em uma resposta fantástica do acelerador, mas também em um som glorioso e viciante que soa a cada vez que você levanta o pé do acelerador. Pelos próximos quilômetros, meu pé direito se transforma em uma criança obcecada, brincando distraidamente com seu novo fazedor de barulho. Ronco do escapamento. Pssss. Ronco do escapamento. Pssss.

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Os homens da lei de Utah estão bem cientes de que um bando de jornalistas está dirigindo o monstro de 350 km/h da Ford e, não mais do que de repente, vejo um policial de butuca depois de uma curva. Não ouso ultrapassar a velocidade máxima permitida nem em 1 km/h sequer, principalmente nas estradinhas secundárias, em um carro que se destaca tanto quanto este. Dirigir em rodovias não me ensina absolutamente nada sobre o pacote de desempenho estratosférico deste carro, mas sim tudo que preciso saber sobre o que o GT significa para uma pessoa comum. Literalmente cada motorista e passageiro de cada carro que eu vejo tem seus olhos colados, à caça por detalhes, seguindo o novo Ford enquanto eu passo por eles. Meu tempo de estrada evapora muito depressa.

Quando volto à pista, fico pensando no que o GT realmente é. Seu desenho é um casamento entre forma e função que grita sobre o passado e o futuro do alto desempenho. Em seu habitat de pista, o carro é um nirvana da direção, com suas sensações orgânicas como resultado direto de proezas complexas de engenharia. Nas ruas, a falta de compromissos, sem nenhum tipo de culpa, lhe confere uma natureza visceral crua que nunca deixa você esquecer o propósito deste monstro. Neste sentido, ele já é um vencedor em competições internacionais. No fim das contas, o Ford GT é exatamente tudo o que precisa ser. Sem um grama a mais.

Fotos: divulgação – Veja todas as fotos do carro no Motor1.com!


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